17.4.08

a força das letras



A palavra. Base de toda a comunicação segundo este código alfabético que é a escrita. Significantes, significados, representados pela entidade letra, que se conjugam numa infinidade de possibilidades, encerrando em si a capacidade de despertar pensamentos e emoções a quem os entende, os interpreta. Mais do que uma forma de imortalizar memórias, as palavras são poderosas armas que motivam actos, sustentam crenças, testemunham sentimentos e pintam retratos, podem libertar quando estamos presos, e presos estando, podemos viajar.
A letra é, no entanto, uma forma, uma representação gráfica de um som, que se conjuga com outras. Necessita da tinta, da geometria, do peso e da cor para existir. A forma das letras interage com a nossa percepção, prejudicando ou beneficiando a leitura. Linhas de letras, intervaladas por espaços, escalas, métricas, orientam um discurso na nossa cabeça. Trata-se de dar um corpo à alma literária. Falo de tipografia. A tipografia é a expressão gráfica da linguagem verbal, e tem o poder de dar personalidade, ritmo e entoação ao discurso (...).

7.3.08

contexto



Tudo tem o seu contexto. Um espaço onde a existência tem o seu sentido. Existência de objectos, de palavras, cores, significados. Não faz sentido falar em DVD no anos 1920's, assim como não faz sentido falar em fotografia no renascimento. Nessa altura a impressão era jovem, os papéis raros, as tintas e as gravuras ainda mais. Faz sentido falar em rectângulo de ouro, em letra veneziana, sépia, sanguínea, preto. Toque e proximidade. Erudito e puro. Assim nasceu o primeiro da sequela dos livros da programação anual do Encontro de Música Antiga de Loulé.

4.3.08

retórica visual

Eu acredito que um designer trabalha a imagem da mesma forma que um escritor escreve um texto. Parece estranho, mas a verdade é que um exercício interessante será encontrar recursos estilísticos, ou figuras de retórica no tratamento das imagens. Se pensarmos na validade dos significados das palavras que lemos, ou imaginarmos as personagens e espaços narrativos e o tentarmos materializar na nossa mente, obteremos uma imagem.
O trabalho do designer trata de inverter o processo.

14.5.07

elogio do silêncio

Silêncio. O contrário do ruído.
Hoje em dia mergulhamos em ruído desde que nos levantamos até que nos deitamos.
Quando pensamos em ruído, facilmente pensamos no ruído auditivo, mas pode também ser visual. É lógico admitir que trabalhar na área do design nos traz todos os dias confrontos com ruídos, uma vez que para chegarmos a uma melodia, é necessário arranhar algumas notas primeiro, o que no processo empírico de design se traduz em tentativa/erro. A procura da forma, da cor, da letra certa. O objectivo é o equilíbrio: fazer com que todos os elementos da orquestra executem a sonata da melhor forma possível. O problema é quando convivem várias orquestras, e os músicos não sabem que partituras seguir, e quando se cruzam e entram em confronto, o resultado só pode ser ruído. Falo do excesso. Demasiadas forças a competir entre si, saber quem grita mais alto e melhor. E quem sofre com isso?...
Isto parece um pouco contraditório, vindo de alguém que participa activamente na criação dessas forças; mas então, como batalhar ou viver com isso? Aprendendo as melodias certas, evitando os desgarranços e os excessos, criando os contextos certos. É muito mais fácil encontrar uma ervilha no meio do arroz, do que um bago específico, não? Refiro-me à neutralidade, à criação de um ambiente que permita ouvir-se o que se tem a dizer, ou seja, antes do espectáculo, vem o silêncio.
Isto tem um modo prático de ser aplicado, e tem muitas vantagens. Consideremos um logótipo: um logótipo não é uma ilustração e não nos devemos esquecer do poder de síntese que ele deve encerrar. Mais uma vez invoco a premissa de quanto mais se quer dizer, menos se diz. A forma deve ser depurada, ter o menor número de elementos possível (seja forma ou cor) e ser conciso.
No extremo do contraste, o preto e o branco são a simbiose perfeita entre contexto e conteúdo. É graças ao silêncio do branco que se ouve o preto a tocar, ou vice-versa, e basta seguir um pouco essa conduta para conseguir uma comunicação eficaz.
Faço assim um elogio ao silêncio, à neutralidade. Todos nós andamos cheios de imagens, sons e cheiros em excesso e precisamos equilibrar as coisas, e não é por isso que perdemos a nossa humanidade. É impressionante a capacidade que temos de imaginar e raciocinar a partir de uma coisa tão pequena, como um ponto, por exemplo. Por vezes basta darmos uma peça a uma pessoa, que ela construirá o resto. Não é preciso darmos de “bandeja” tudo. É mais gratificante encontrar uma solução pessoal, do que nos dizer algo que já depreendemos à partida.
Venha o silêncio, para podermos pensar!

25.4.07

a mancha


Quando no nosso ramo se fala de mancha, acaba por ser um termo lato, aplicável nos mais variados contextos. No entanto, o mais vulgar é referirmo-nos ao peso visual das formas a nível de contrastes, forças cromáticas ou conflitos de forma/fundo. Falamos de equilíbrios de convivência, direcções da atenção, hierarquias dos elementos, intensidades. Pessoalmente, e de uma forma menos óbvia talvez, deparo-me muitas vezes com a mancha tipográfica. A força cromática que um texto possui, segundo a sua composição e formatação, níveis e natureza de informação. Trabalho, na maioria das vezes, numa escala de cinzas: do mais preto para o menos preto. Para entendermos isto, e como exemplo prático, basta abrir um jornal: as grandes e negras letras são o chamariz para incitar à leitura do texto, e normalmente têm uma escala muito superior à do texto corrido. Os subtítulos terão outra escala e descem na hierarquia da informação, logo serão “mais pequenos”. O texto deve assumir uma forma regular mais equilibrada, porque vai exigir mais atenção, concentração e encadeamento de ideias. É necessário, portanto, que este seja discreto, simples, o mais legível possível. É um trabalho complexo que exige uma manipulação de elementos microscópicos, que a nível do seu todo deve contribuir para a veiculação da mensagem, para melhor respeitar o seu conteúdo.
Uma experiência curiosa é a de desfocar a visão, até deixarmos de ver letras, palavras, para vermos manchas horizontais. Começamos a reparar noutras variáveis que nos passariam despercebidas, e deparamo-nos com a construção de rectângulos, quadrados, formas geométricas que quase conseguimos contornar. Mas isso é um exercício cognitivo: juntamos as peças com o objectivo nos parecerem harmoniosas e conhecidas, para um reconhecimento e interpretação mais rápidos. Nós lemos as palavras por mancha e não l e t r a a l e t r a , e é por essa razão que os erros ortográficos nos escapam. Habituamo-nos a ver os pequenos rectângulos que as palavras produzem. O interessante é que essa percepção se propaga: uma letra transforma-se num pequeno rectângulo, uma palavra num rectângulo mais comprido, uma frase num outro ainda mais comprido.
Numa fase seguinte começamos a ver rectângulos compridos sobrepostos, como numa camisola às riscas. Quando o texto se compõe, os rectângulos evoluem para uma escala muito superior, e crescem na vertical, formando colunas. São esses elementos pseudogeométricos que agora competem no espaço – os seus pesos visuais têm agora de ser balançados, hierarquizados.
As escalas e as espessuras dos traços, que desenham os diferentes tipos e categorias de letra, produzem aquilo que se chama a cor tipográfica, a tal escala de cinzas referida anteriormente. Convive-se assim com um jogo de elementos macroscópicos, com manchas de cor com diferentes pesos de negro que agora precisam relacionar-se num mesmo plano.
É um trabalho muito complexo, mas que não aparenta ser, à primeira vista. Spiekermann já dizia que por alguma razão “alguns jornais são mais agradáveis de ler do que outros”. Não sabemos exactamente porquê, mas simplesmente nos parece ser mais apetecível, mais fácil de ler, ou mais leve.
O mesmo texto, as mesmas palavras e conteúdos poderão ter uma aparência extremamente diferente quando formatados de forma distinta, o que influencia a percepção que temos da informação a ler e, consequentemente, a vontade que temos de a ler. Não é difícil pensar que a vontade de ler influencia a velocidade a que se lê.
A formatação de um texto funciona como a textura da pele de um tubarão. As características microscópicas do revestimento da sua pele fazem com que ele seja dos animais que mais rápido se movimenta dentro de água. Pois bem, uma má textura na pele de um texto, fará com o texto demore muito tempo para ser lido, pelas dificuldades visuais que apresenta desencorajando o leitor a continuar – o que é comprometedor para o objectivo do texto: ser lido e comunicar.

4.4.07

"linhas" de pensamento

Um professor meu uma vez afirmou que a linha não existe. É algo de racional, inventado pelo Homem, e que descreve contornos que enclausuram formas. A linha, segundo esta óptica, não existe na Natureza, não é real, palpável. Não é difícil reconhecer isto, se pensarmos nos conceitos da geometria. Se um ponto não tem dimensão, e a soma de pontos é uma recta, então a recta não tem dimensão, e não é a rugosa e irregular grafite que tem poder para lhe atribuir uma dimensão mensurável.
A linha, assim, é a racionalização das delimitações das formas. Se olharmos e preenchermos a área que a linha delimita, obteremos uma mancha.

15.3.06

abstratu

A abstracção* é actualmente uma premissa essencial em muitos dos trabalhos do designer. Hoje em dia, com a evolução social e consequente aumento da literacia e acesso à informação, também o design necessita evoluir para um estado que se pode dizer como intelectualmente desafiante. A capacidade de separar a forma do seu suporte ou origem empíricas é um exercício em si só complexo, ainda que o seu resultado formal não o revele, e por isso mesmo seja desvalorizado muitas vezes o processo de concepção do produto final do design. Assemelha-se um pouco ao estudo lógico indutivo/dedutivo, isto é, partir de um conceito geral, para nos concentrarmos num detalhe que em si só faça despoletar um encadeamento de ideias, até chegar à mensagem veiculada, e ser capaz de inverter o percurso. A única diferença, é que um matemático ou um físico chegam a uma expressão ou equação que conjuga os elementos que interagem e, independentemente dos seus valores, a relação mantém-se e converge para uma "verdade absoluta". No design isso não acontece, pelo simples facto de que o designer adultera as perspectivas para sobre as quais se considera o objecto, e ele próprio filtra os atributos que considera serem relevantes em virtude do seu entender e dos seus valores, tornando a suposta "verdade absoluta", num resultado "possível e subjectivo". Quero com isto dizer que existem muitas formas de solucionar um determinado problema, e que o designer é um agente activo na interpretação e resolução do problema.
Um exemplo concreto e prático disto é um logótipo. Um logótipo é, no meu entender, a forma canónica de um conceito que, associado directa ou indirectamente a um produto ou uma entidade, faz levantar a questão "porquê?". Isto acontece devido ao facto de ter existido durante muito tempo a necessidade de ilustrar em vez de provocar, argumentado pelo imediatismo da percepção. No entanto, esquecemo-nos por vezes que os símbolos são isso mesmo: um elemento gráfico que representa algo que não pode ser ilustrado no seu todo ou em parte de uma forma satisfatória ou completa, e que só tem valor porque lhe foi atribuído tal. Para mais, na esmagadora maioria das vezes, ainda que um símbolo possa ter uma origem icónica, pode ser destilado de tal forma, que normalmente o produto final não tem nada de figurativo. É aqui que o processo de abstracção entra: como sintetizar todos os atributos do que se quer representar num único elemento? Eu diria que é impossível. Como diria Francisco Providência, a intensidade é inversamente proporcional à intenção, ou, por outras palavras, quanto mais se quer dizer, menos se diz. Daí que o caminho a tomar normalmente, seja concentrarmo-nos num ponto-chave que julgamos ser forte e abrangente, ou seja veículo para tal, e lhe demos ênfase. Trata-se de criar um rastilho para chegar à explosão da ideia.
Mais do que tentar justificar o trabalho que não se vê, pretendo apenas mostrar que o mais simples resultado teve um pensamento complexo anterior, e que não se deve subestimar a dimensão ou extensão de um pensamento, pessoa ou objecto, sem entender a sua essência e potencial.
Será que assim se conseguirá valorizar mais o "nosso pouco trabalho"? Talvez no final se conclua tratar-se de uma questão de perspectiva, de pensamento e de provocação.



*adj.,
que designa uma qualidade separada do objecto a que pertence;

s. m.,
o que se considera existente só no domínio das ideias e sem base material;


Arte,
diz-se da manifestação artística de conteúdo e forma alheios a qualquer representação figurativa, que é característica de diferentes épocas, culturas, ou correntes estéticas, e transcende as aparências exteriores da realidade.
(definições retiradas do Dicionário Universal)